segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O carteado gaúcho na sucessão ao Piratini

Lula e Dilma passaram o final da semana pavimentando o terreno para a sucessão presidencial. Na prática, passaram um trator no pampa gaúcho. Para ler no site da Carta Capital clica aqui.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Rio Grande de desilusão


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Prezados leitores. O Daniel, meu editor neste espaço, pediu para fazer uma coluna de balanço do ano.

Confesso. Não consegui. Ou melhor: Na verdade, esta coluna é muito diferente de todas as que já escrevi neste espaço. Primeiro, porque não é uma coluna, é uma carta, quase um desabafo; segundo, porque não tenho muito o que dizer. Tenho, apenas, talvez, "à la Guimarães Rosa", algumas coisas a "desdizer".

Minha pauta na revista é tratar da cena política gaúcha. Acreditem: Não é uma tarefa fácil. Sou gaúcho, e ser gaúcho nos dias de hoje não é simples. Ser gaúcho vem se tornando todos os dias mais complicado. Analisar o cenário político é pior ainda. E, em 2010, tudo pode se tornar até mais difícil.

Todas as semanas no últimos meses tenho sido obrigado a refrear meu desejo de pedir ao Daniel para alterar minha pauta. Acordo sempre às segundas feiras desejando falar sobre o Brasil e o sucesso do governo Lula, sobre o Obama e o desafio de administrar a crise do império, sobre a América Latina e a afirmação de seu povo nos espaços públicos. Mas não. Tenho de tratar da cena gaúcha, e isso hoje é tratar da miséria da política, da pequenez, dos mais baixos instintos que quase sempre estão por detrás dos movimentos de hoje em dia no pampa.

Não. Não estou falando de ética ou de falta dela na política gaúcha. Este assunto, confesso, não é o que mais me preocupa. Penso, aliás, que o governo Lula conquistou avanços fantásticos neste terreno. "Nunca na história deste país" se viu tanto criminoso de colarinho branco tocando piano nas delegacias antes reservadas apenas aos bandidos pobres.

O problema é outro. Vivemos hoje num país que saiu da crise porque soube defender suas empresas, seu patrimônio, seu povo. Um país que aos poucos torna-se motivo de orgulho por todos lados. Ser brasileiro na Europa durante muito tempo foi sinônimo de ser trambiqueiro ou prostituta, no máximo jogador de futebol. Nos últimos anos, o país foi capaz de iniciar uma verdadeira revolução que hoje reposiciona o Brasil no mundo. O Rio Grande do Sul, não.

Também não estou falando de justiça social. Esse assunto hoje é domínio federal. E, justiça seja feita, "nunca antes na história desse país" se viu o povo sendo tão "justiçado" como está sendo agora. É Bolsa Família, Fome Zero, Minha Casa Minha Vida, salário mínimo que cresce, emprego que cresce, mais educação e até saúde. E isso, o Brasil está fazendo por todos, inclusive pelos gaúchos.

Estou falando é da falta de liderança, da incapacidade política dos gaúchos, da sua incompetência para tirar o Rio Grande da situação em que encontra. É lamentável, mas todos os indicadores são claros. O Rio Grande do Sul perdeu a onda do crescimento nacional. No Rio Grande do Sul, demos as costas a tudo o que de bom está sendo conquistado em nível nacional. Crescemos como rabo de cavalo. Para baixo, e para trás. E isso é culpa de todos os gaúchos que não conseguiram gestar nas últimas décadas lideranças capazes de enfrentar nossos problemas. Isso é culpa sua e é culpa minha. Acho que é por isso que não consegui fazer um balanço.

Quando Olívio Dutra foi governador, disseram que o problema era o PT. Tivemos quatro ano de PMDB e agora mais quatro de PSDB. Passamos quase oito anos sem o PT e o Estado só piorou. Alguns dizem agora que o problema todo é dos "serristas". O governo gaúcho, tendo a tucana Yeda Crusius à frente, está atolado na falta de ética. E esse seria o seu maior problema.... mas, acreditem, esse não é nosso maior problema.

A falta de ética na política gaúcha é apenas reflexo da mediocridade. Quando ladrões e achacadores se tornam "líderes" políticos, algo está muito mal. E o que está mal entre nós é a falta de liderança verdadeira, é a falta de política, a falta de grandeza.

Hoje, o Rio Grande do Sul está tão preso ao passado que, com tristeza e esperança, lembrei Drummond: "Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."

sábado, 12 de dezembro de 2009

Pesquisas aceleram definições na cena gaúcha


Dezembro está sendo um mês de emoções intensas no Rio Grande do Sul. Quando ninguém mais esperava novos lances na definição do tabuleiro, dois fatos aparentemente desconexos alteraram a cena política.
De um lado, a luta interna no PMDB para definir um candidato para 2010 teve um desfecho favorável a José Fogaça. De outro, uma pesquisa divulgada pelo Instituto Methodus indicou a vitória do ministro Tarso Genro em todos os cenários, no primeiro e no segundo turno.

O PMDB diante do óbvio
Até final de novembro, Fogaça vinha negando a candidatura. Pretendia deixar a sua saída da prefeitura de Porto Alegre para o prazo limite, de olho nos louros que um conjunto de obras e iniciativas (a maioria com recursos do governo federal, como as da Copa) poderiam lhe trazer. Mas Fogaça não aguentou a pressão. O xeque-mate que obrigou-o a sair da moita veio do próprio PMDB. O anúncio de Germano Rigotto dizendo não ser candidato a governador em nenhuma hipótese acabou “deixando o partido sob o risco de uma anomia”, nas palavras do próprio candidato.
Ou seja, o PMDB gaúcho, atravessado por um debate surdo entre o lulismo e os tucanos, deparou-se com o óbvio: a necessidade de ter um candidato em torno ao qual construir sua política para 2010. Teria sido o próprio senador Simon, presidente do PMDB no estado, que teria convencido o prefeito de Porto Alegre. A indefinição já começava a ser vista pelas bases como insegurança da cúpula e muitos, principalmente os prefeitos do interior, já ameaçavam engrossar as fileiras do ministro Tarso Genro, de olho nos cofres federais.

A pesquisa e suas limitações
Pesquisas a esta altura são apenas termômetro. Mas é exatamente isso que deve ter apavorado os peemedebistas. Pela pesquisa, o governo Yeda Crusius, até agora sustentado e blindado pelo PMDB, inclusive, é um governo reprovado por 64,6% dos gaúchos. E por maior que seja o esforço para tentar reconstruir sua imagem, Yeda não pára de produzir negatividades. A mais recente, depois de afrontar brigadianos e professores com um projeto na Assembleia que desmonta as carreiras e está levando os professores a uma greve, foi a revelação de que sua filha, sem renda para tal, também teria comprado uma casa. Ao mesmo tempo que esta percepção se torna irreversível, apesar da ampla e total cobertura da mídia, o governo Lula soma 67,2% de aprovação. A diferença, no caso do presidente, é que Lula sofre no Rio Grando do Sul uma campanha sistemática e cotidiana contra o seu governo, capitaneada pela mídia gaúcha.
Neste quadro desastroso para os tucanos e confortável para os petistas, o ministro Tarso Genro, que largou na frente e é pre-candidato a governador desde o primeiro semestre do ano, aparece em primeiro lugar em todos os cenários possíveis. Na menção espontânea, o ministro tem 11,1% dos votos e o prefeito de Porto Alegre tem 6,0%. A rigor, Fogaça empata com três outros nomes (Olívio Dutra, PT, 5,9%; Rigotto, PMDB, 5,8%; Yeda Crusius, PSDB, 5,2%) e, assim como seu adversário, encontra dificuldades para traçar um caminho seguro até as urnas em 2010.
Mas se Tarso aparece bem (com 32,9% contra 25,7% de José Fogaça no primeiro turno) e, pelas pesquisas de hoje, tendencialmente é o vencedor (ganha em todos os cenários de segundo turno, inclusive contra Fogaça, por 48,5% a 39,6%) a decisão do PMDB de fardar-se para entrar em campo acelerou o processo de definição das alianças.

A noiva em disputa
Pesquisas e pressão nos bastidores: estes foram os ingredientes para Fogaça mudar seu posicionamento. A pressão veio de todos os lados, mas principalmente do PDT.
Com o anúncio da candidatura de Fogaça, o PDT praticamente já assumiu a prefeitura de Porto Alegre. É um dezembro de café frio para o prefeito e tinindo para o vice, José Fortunatti, que deverá governar os próximos dois anos. Na lógica do senador Simon, o anúncio do nome de Fogaça tornaria natural o apoio do PDT à candidatura do atual prefeito a governador em 2010. Mas, passados alguns dias, de novo tudo pode acontecer, inclusive o PDT governar Porto Alegre e figurar na vice de Tarso Genro.
O PDT promete reunir-se dia 17 e definir sua posição. Internamente, haveria três possibilidades. Candidatura própria, Tarso Genro ou José Fogaça. Nesta semana que antecede o Natal, o líder do governo Lula na Câmara e um dos coordenadores da campanha do ministro Tarso, deputado Henrique Fontana, anunciava a intenção de apresentar ao PDT gaúcho uma proposta irrecusável. ///

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Zero Hora assume anti-lulismo


A imprensa gaúcha é hors concours. Na terça-feira 1, o jornal Zero Hora manchetou: “Porto Alegre registra o novembro mais chuvoso em cem anos”. Na capa, nem uma palavra sobre o Arruda e seus arroubos. A página de politica, sob o chapéu Inferno Distrital, anunciava que “Esquema de propina faz ruir governo Arruda”. (Para ler na Carta Capital On Line clica aqui.)

Na quarta-feira 2 o tema veio para a capa de ZH com uma manchete enigmática: “Mensalão no DF afeta alianças para 2010”. Logo abaixo, uma legenda ainda mais acobertadora dizia: “Gravações de suposta propina fazem partidos como o PSDB abandonarem o governo Arruda e ameaçam interferir no cenário eleitoral”. Já na Página 10, a colunista de política mais lida do estado, Rosane de Oliveira, manchetava que o presidente Lula possui “critérios elásticos” e estaria sendo condescendente com o governador Arruda....

Imagem não fala por si
Me preocupei. Afinal, será que Lula estaria mesmo sendo condescendente com a corrupção. Logo ele, que sempre disse que o assunto é para ser tratado na polícia e na Justiça. Fui verificar a entrevista. Para isso, o YouTube é fantástico. Assista aqui o trecho da polêmica. http://www.youtube.com/watch?v=mtAXeobIGgI&feature=player_embedded.

Veja que Lula disse exatamente o seguinte: “Vamos aguardar. Imagem não fala por si. O que fala por si é todo o processo de apuração, todo o processo de investigação. Quando tiver toda a apuração, toda a investigação terminada, a Polícia Federal vai ter que apresentar um resultado final, um processo, aí anuncia. Aí você pode fazer juízo de valor. Mesmo assim, quem vai fazer juízo de valor final é a Justiça. O Presidente da República não pode ficar dando palpite, se é bom, se é ruim. Vamos aguardar a apuração.”

Na coluna da comentarista Rosane Oliveira, de Zero Hora, a afirmação de Lula virou em “as imagens não significam nada”. Como se Lula tivesse dito isso. Rosane, que em geral é ponderada, no caso, exagerou de vez. Segundo ela, no episódio, “ao dizer que as imagens não significam nada, Lula mostrou uma elasticidade preocupante do ponto de vista ético”.

Como o presidente não disse o que Rosane afirmou, fiquei aguardando uma retratação, um pedido de desculpas pela barriga, qualquer coisa. Esperei que no dia seguinte, quinta-feira 3, Zero Hora e Rosane de Oliveira retornassem ao leito da veracidade. Mas não: Zero Hora voltou às manchetes climáticas: “Jornada de transtornos” acima de uma foto de um ônibus na chuva. O tema Arruda mereceu apenas uma manchete secundária e quase sem significado para o leitor gaúcho: “Protestos e ações de impeachment isolam Arruda”.
Sexta-feira, dia 4, idem. Nem Rosane de Oliveira, nem seu jornal Zero Hora, deram qualquer explicação. Nem mesmo no blog da jornalista vimos qualquer alteração de linha.

Claro, o manual de redação do jornal Zero Hora recomenda tudo ao contrário do que foi feito. Mas parece que ultimamente, cada vez mais, manuais de redação são para serem contrariados....

O silêncio fala mais alto
Torço por estar errado, mas o silêncio de Rosane e do jornal podem significar um passo adiante na política do grupo RBS no Rio Grande do Sul. Ao longo dos últimos anos, Zero Hora e a RBS alimentaram diariamente o anti-petismo no Estado. Como o discurso do PT gaúcho está, vamos dizer assim, deixando de ser tão “petista” e se tornando mais “lulista”, Zero Hora, que durante algum tempo flertou com a possibilidade de colaboração com Lula (o presidente, antes ainda de 2002, chegou a ter coluna assinada no jornal) está mudando de posição. Faz meses, progressivamente o jornal vem repetindo de modo crescente os bordões do imprensa nacional. Mas agora, houve uma mudança. O jornal e Rosane se posicionaram: O alvo agora é Lula.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Rio Grande do Sul: um estado sem norte

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O atual cenário político no Rio Grande do Sul é de incertezas. Incertezas e confusão. Se até alguns meses se podia trabalhar com a idéia de um confronto entre o PT e o PSDB, entre Tarso Genro e Yeda Crusius, hoje há inúmeras possibilidades. Neste momento, a mais provável é o lançamento de várias alternativas, cada uma delas se apresentando aos eleitores gaúchos como a verdadeira portadora da ética, da justiça e do desenvolvimento.

Esta semana, foi a vez dos trabalhistas (PDT e PTB, mais o DEM) lançarem um balão de ensaio afirmando a possibilidade de candidatura própria por uma terceira via. Semana passada foi o PSB, com o deputado Beto Albuquerque, quem tentou colocar-se no partidor como alternativa.

No campo governista, a crise é tão grande que a agenda mínima possível é simplesmente não permitir que a governadora caia. Para isso, fez-se necessário um pacto de silêncio e proteção que faria inveja a máfia siciliana. Tal grau de proteção para Yeda Crusius só é possível porque existe um ambiente social que o permite. Ou seja, do ponto de vista eleitoral, Yeda não é carta fora do baralho e, se é provável que fique fora do segundo turno em 2010, também é possível que venha a ser decisiva no processo.

Se há conflitos intransponíveis na situação, por exemplo, entre a governadora e seu vice, na oposição o quadro não é muito diferente. Tarso Genro até agora conseguiu unificar o seu partido, mas convencer o PT gaúcho de que ele precisa abrir mão de posições para outras forças já são outros quinhentos. O resultado é que hoje o mais provável é que Tarso concorra sozinho no primeiro turno, e tenha de enfrentar antigos aliados, como o socialista Beto Albuquerque, o PCdoB e possíveis aliados mais recentes, como petebista Luis Augusto Lara, lançado candidato a governador pela sigla. Mas, claro, nada disso impede Tarso de sonhar em ser o próximo governador.

Análises mais rigorosas colocam o PMDB gaúcho no campo da direita. O eleitor, contudo, tem a memória do compromisso do MDB com a luta democrática e ainda hoje compreende os candidatos peemedebistas como alternativas de centro. Hoje, o velho MDB é o responsável pelo círculo de silêncio que garante a possibilidade de Yeda continuar governadora. Conudo, o PMDB, com José Fogaça, prefeito de Porto Alegre, ou Germano Rigotto, ex-governador, trabalha intensamente para retornar ao Palácio Piratini. No momento, tudo indica que Fogaça, numa inflexão pró-Serra, seja o candidato de centro “para derrotar o PT”.

Socialistas, capitalistas, petistas, pepistas, trabalhistas, liberais, comunistas, social-democratas e democratas – todos, todos no Rio Grande do Sul têm uma coisa em comum: estão sem norte.

Vamos ver o que povo diz

Caetano Veloso, entre seus arroubos de genialidade, tem um verso que considero chave para entender o país: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Escrito antes do desastre neoliberal, e muito antes do analfabetismo político confesso criticando nosso presidente (meu e dele, também), o verso faz parte de uma música que anuncia o novo/velho Brasil fora da ordem, “fora da nova ordem mundial”.

Fui entender de onde Caetano tirou essa idéia quando viajei pelo sul da Bahia há uns quinze anos. Na época, fiquei impressionado com a quantidade de construções populares abandonadas pela metade. Passando de cidade em cidade num ônibus pinga-pinga pude ver que na Bahia tudo era construção e já era ruína. Parecia que o povo fazia um enorme esforço, investia suas economias e sua energia num projeto, mas era obrigado a abandonar antes de chegar ao fim. Também lembro que o número de homens parados, conversando de manhã, de tarde ou de noite me impressionou. Nunca havia visto tanta gente reunida em grupos dispersos sem nada para fazer.

Recentemente voltei à Bahia. Vi muitas construções novas e não encontrei mais a paisagem da desocupação de quinze anos atrás. Encontrei uma Bahia “fora da nova ordem mundial” que soube, como o Brasil, fortalecer-se e superar-se diante da crise. Sinceramente, não sei se isso é corroborado pelos números frios da economia e das taxas de crescimento, mas a impressão que me ficou foi essa.

A ordem e a desordem em comum

Tudo muito diferente do Rio Grande do Sul. Quando o povo baiano lutava há quinze anos contra as ruínas, no Rio Grande do Sul montávamos sonhos de poder à esquerda, à direita e ao centro. O Rio Grande do Sul, em geral, prosperava fora da ordem brasileira. A cada período de quatro anos vínhamos e seguimos perseguindo a ordem e a contra-ordem mundial. Oscilamos entre alternativas neoliberais, socialistas e centristas com grande radicalidade, todas muito bem ordenadas ou contrárias à ordem.

Fizemos muito no Rio Grande. Mas não tivemos a capacidade que o Brasil teve de construir o novo, de superar padrões e conceitos. Ficamos aprisionados no pampa gaúcho aos velhos dogmas. A arrogância gaúcha – “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”, afirma o hino do Estado – norteou todas as construções políticas do pampa. Quem não lembra de Leonel Brizola dando lições de política? De Pedro Simon ensinando ética? De Antônio Britto, defensor da cartilha privatista? Do PT de Porto Alegre, demiurgo do Orçamento Participativo e do Fórum Social Mundial?

Hoje, a desordem gaúcha, a falta de projeto e de comando, produz o mesmo que a ordem baiana sob ACM: confusão e atraso. Ainda não se vê grupos de “gaúchos a pé” na beira das estradas conversando, mas as rodas de chimarrão que ainda existem já são cada vez mais longas. E lentas.

O convencimento do povo gaúcho hoje é de que sua elite de direita, de centro ou de esquerda não possui ética. Que suas estruturas de poder – Estado, Detran, Tribunal de Contas, Prefeituras, etc, etc – estão corrompidas. E pari passo com o conjunto do povo brasileiro, o povo gaúcho não chega a ver grande problema nisso. O problema que o povo vê é que hoje o Rio Grande está tomado pela mediocridade, pela falta de iniciativa, pela ausência de projetos, pelo pensar rasteiro, pela política miúda.

O Rio Grande do Sul hoje é um Estado sem norte e suas lideranças batem cabeça tentando entender o que se passa, mas têm enorme dificuldade.

É neste cenário de incertezas em que a democracia (ou a falta dela) demonstra o seu valor. Por sorte, neste país que venceu a crise com a força do trabalho, hoje temos uma democracia razoavelmente sólida. E ano que vem, 2010, o povo gaúcho vai decidir o rumo que quer tomar. Eu, de minha parte, como Caetano, apenas digo que “não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.

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OBS: Tive a inspiração para esse artigo lendo um texto do Emiliano José, Caminhos do Futuro, que se você ainda não leu eu recomendo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A imprensa, Yeda e Lula no Pampa


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Muita gente acredita na recuperação de Yeda Crusius, na possibilidade dela vir até a reelege-se em 2010. Crê que vencidos os inquéritos, os processos administrativos, judiciais e políticos, como o impeachment e a CPI ainda em curso na Assembleia, a governadora renascerá das cinzas numa campanha eleitoral restauradora de sua imagem e sua política. O trabalho que está sendo feito nos últimos 60 dias para Yeda reforça essa tese. No lugar da governadora geradora de conflitos, uma Yeda "paz e amor" passou a ser apresentada em todos os meios de comunicação em fotos e manchetes.  
 
Até ano passado a possibilidade de recuperação era real. Um conjunto de elementos indicava que Yeda poderia afirmar seu governo e, um pouco como Lula no pós-mensalão, dar a volta por cima. Agora, não existe mais gerenciamento de imagem que resolva seus problemas. Os que acreditam poder recompor sua viabilidade eleitoral em geral subestimam a inteligência do eleitor. Acham que o marketing e mídia podem tudo.
 
Os motivos que levaram Lula às alturas na avaliação do cidadão brasileiro são os mesmos que colocam Yeda entre os piores governos da história do Rio Grande. O presidente Lula chegou aos 80% de aprovação por causa da sua política e navegando na contra-mão do PIG. Já Yeda fez o inverso. Com uma proteção permanente do PIG, a governadora hoje tem cerca de 80% de desaprovação. Ou seja, assim como o PIG não derrotou Lula, o PIG não será capaz de reerguer Yeda em 2010.
 
Políticas inversas
 
A saga de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul repete, em grande medida, a de seus antecessores. Jair Soares, Alceu Colares, Antonio Britto, Olívio Dutra, Germano Rigotto foram governadores que buscaram acertar e acabaram recusados pelo eleitor. Mas Yeda tem uma particularidade: ela sempre dependeu da força das suas ideias e pôde desprezar, em sua trajetória, partidos, forças sociais e soluções de compromisso. Até chegar, quase por acaso, ao cargo que ocupa hoje.
 
Tudo o que se pensar sobre Lula e suas políticas, deve-se colocar um sinal de negativo para compreender Yeda. Enquanto Lula agrega, Yeda confronta. Enquanto Lula conversa, Yeda briga. Enquanto o Brasil segue em frente, O Rio Grande vai para trás.
 
Yeda faz um governo que teve a ousadia de instalar uma representação em Brasília chamando-a de "embaixada", como se o Brasil fosse um outro país. No governo gaúcho, confrontada com uma posição em que, obrigatoriamente, é preciso "fazer política", Yeda revelou-se incapaz. Sua gestão é uma sucessão de confrontos e feitos inúteis ou negativos, a maior parte deles com os próprios aliados. Incluem-se nesta lista o vice-governador, Paulo Feijó, do DEM; o assessor morto em Brasília, que chegou a ser nomeado "embaixador" da "representação gaúcha"; o "companheiro" Lair Ferst, que teria feito uma delação premiada; o ex-secretário da Segurança Pública, Otávio Germano (PP), que teria a ver com a corrupção no Detran.... A lista é longa e deve frequentar as atas de julgamentos e condenações judiciais nos próximos anos. Diante de tudo isso, Yeda mostrou-se inconfiável ao eleitor. Ela havia prometido "um novo jeito de governar". O mínimo que deveria ter cumprido seria encarar de um modo diferente a corrupção. Mas, não. Yeda acabou decorando o quarto do neto em sua casa particular com dinheiro público. Comprou puffs e assoalhos emborrachados. E não existe PIG no planeta que consiga justificar isso. Nem vai resolver o PSDB intervir no estado gaúcho, nomeando uma agência paulista para cuidar da imagem de Yeda.  
 
O papel do PIG gaúcho
 
Já manifestei aqui meu distanciamento crítico quanto ao termo PIG. Esqueçam! Vocês, leitores, me convenceram de que é preciso trabalhar com o conceito. Mas vamos ao que interessa: O PIG gaúcho fez tudo o que podia e não podia por Yeda Crusius. Se alguma coisa vale a minha palavra, eu testemunho: nunca um governante teve tamanha boa vontade da mídia quanto Yeda Crusius. Nem mesmo Antônio Britto foi tão defendido. Yeda teve tudo, tudo, tudo. E ainda está tendo. E, em que pese o peso e importância da mídia na formação da opinião das pessoas, todo o apoio que foi dado à governadora não conseguiu forjar uma imagem positiva de seu governo.  
 
Ao mesmo tempo, o PIG gaúcho vem martelando contra Lula noite e dia nos últimos anos mas também não consegue imprimir uma imagem negativa ao presidente. Ao contrário, hoje Lula tem no RS praticamente os mesmos índices que possui no país. Ou seja, o papel do PIG gaúcho, cada vez mais, é enrolar peixe no dia seguinte. ///

sábado, 24 de outubro de 2009

Yeda derrota o impeachment


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Na última terça feira, 20, a governadora Yeda Crusius obteve uma importante vitória na Assembleia gaúcha. Com 30 votos a favor e 17 contra, o processo que pedia sua cassação foi encerrado. Os deputados que a apoiam votaram pelo do relatório da deputada Zilá Breitenbach (PSDB) que requiria arquivamento do pedido de impeachment da governadora tucana. Em cadeia nacional, a deputada declarou que não cabia instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito “porque as provas não eram suficientes” (sic).

O resultado já era esperado. No início do ano, líderes da oposição já avaliavam que dificilmente um pedido de impeachment iria prosperar na Assembleia “porque 2/3 da Casa estão comprometidos”, me afirmou um deputado. Após a votação, foram ouvidos fogos de artifícios próximos ao Palácio Piratini.

Agora, o próximo passo do governo deve ser enterrar também a CPI da Corrupção, que está travada na Assembleia. Com isso, Yeda recuperaria as condições mínimas de governabilidade e poderia voltar a sonhar com a reeleição.

Um roteiro de factóides

Nas últimas semanas, Yeda Crusius trava, talvez, as últimas batalhas políticas de sua vida. A julgar por todas as pesquisas de opinião de diversos institutos, o eleitor gaúcho já fez o seu julgamento. Yeda é considerada a pior governadora que o Estado já teve, creio que desde que são feitas pesquisas. Ela não tem, portanto, nenhuma chance eleitoral em 2010. Mas insiste em declarar-se candidata, e reiterou esse desejo na convenção do PSDB no último final de semana.

Yeda Crusius, antes disso, havia iniciado uma viagem a Washington, onde deveria reunir com o Banco Mundial para obter liberação da segunda parcela de 650 milhões de dólares de um empréstimo de 1,2 bi que obteve ano passado. Esse empréstimo é pedra angular de seu governo. É ele, junto dos cortes realizados, que permitiu o “déficit zero”, apresentado a todos como sua grande conquista diante das gestões anteriores. Sem essa segunda parcela, seu governo deve naufragar num mar de dificuldades.

A reunião para negociar a liberação da segunda parcela com Banco Mundial estava prevista para a última semana. Mas tendo chegado em São Paulo, Yeda teria sonhado (ou “um anjo” teria ido falar com ela) que sofreria um golpe de Estado. Alertada pelo sonho premonitório (ou pelo anjo), Yeda retornou imediatamente e passou a denunciar a tentativa de golpe. O golpista seria seu vice-governador, Paulo Feijó (DEM), com apoio do poder judiciário e do poder legislativo. Tudo dentro de um roteiro que parece inspirado em Joana D'Arc – e, na prática, chega a ser uma ofensa à memória da mártir francesa.

Porque Yeda não viajou?

Ninguém na imprensa gaúcha se deu ao trabalho de investigar os motivos da desistência de Yeda de viajar. Na verdade, talvez Yeda não pretendesse desde o início ir a Washington. Ocorre que as condições exigidas pelo Banco Mundial para liberar a segunda parcela do empréstimo não foram cumpridas. Yeda simplesmente não obteria a liberação dos 650 milhões de dólares de que precisa desesperadamente.

Para prosseguir com o contrato, o Banco Mundial exige que o governo: 1) Implemente as Oscips, programa para o qual a RBS tem se esforçado em dar uma cobertura positiva, mas ainda patina; 2) Faça o ajuste fiscal, que hoje é impossível devido à queda da receita; 3) Implemente um Sistema de Previdência Complementar (está na Assembleia) e de Gestão Única da Previdência (já aprovado pela Assembleia), este ainda dependente da adesão do Judiciário e da Assembleia e que encontra resistências corporativas instransponíveis em ambos; 4) Imponha novos Planos de Carreira, com ênfase para o Plano de Carreira do Magistério, acarretando perdas ao funcionalismo, que resiste de todas as formas. Assim, a viagem seria uma derrota definitiva.

O financiamento do Banco Mundial foi negociado antes da crise da economia internacional. Toda a sua lógica é neoliberal, assim como o governo de Yeda Crusius. A conclusão óbvia é que a governadora não viajou simplesmente porque não fez o dever de casa, conforme seus financiadores internacionais. Não foi nenhum anjo que soprou em seu ouvido. Foi o próprio “Deus Mercado”.

A terceirização do governo

A confusão é tamanha no pampa gaúcho que o PSDB nacional teria decidido socorrer a governadora tucana contratando uma empresa de comunicação e gestão de crise para cuidar da sua imagem. Até aí, tudo bem. É absolutamente legítimo que o PSDB, preocupado com as trapalhadas de um de seus mais importantes quadros, contrate uma assessoria para auxiliar a governadora a sair da saia justa em que se meteu.

A julgar, entretanto, pelas informações que circulam nos bastidores da imprensa gaúcha, tem muito caroço neste angu. Conforme o site Coletiva.net, especializado nos meios publicitário e jornalístico, uma empresa paulista, FSB Comunicações, “foi contratada pelo PSDB nacional e um grupo de empresas, em um pacote de R$ 1,8 milhão”. Ainda conforme Coletiva.net, a FSB “há cerca de dois meses presta serviços ao Palácio Piratini”. Além disso, já teria feito pesquisas que repetem os dados de outros institutos e seria responsável pela demissão do Coordenador da Assessoria de Comunicação do Palácio Piratini, jornalista Joabel Pereira.

O site Coletiva.net em geral é bem informado e, até agora, ninguém desmentiu nenhuma de suas afirmações. E todas são gravíssimas.

Quem seriam as empresas interessadas em limpar a imagem de Yeda? A troco de quê estariam fazendo isso? Como é possível uma consultoria contratada por um partido e um ”grupo de empresas” estar prestando serviços para um governo? E, inclusive, demitindo seus dirigentes? Com que autoridade?

Mais: Por que uma empresa investir num governo falido? Quais as razões por trás disso? Se há um insvestimento, qual é a expectativa de retorno? Pior ainda: Não estaríamos diante de uma espécie de terceirização ou privatização do próprio governo do estado? Ou, senão do governo, pelo menos de sua política de comunicação, dado que, conforme a Coletiva, a consultoria contratada pelo PSDB e pelas empresas, estaria dando as cartas no setor?

São tantas as perguntas que talvez a base yedista na Assembleia gaúcha esteja certa: o melhor é nem dar respostas

domingo, 18 de outubro de 2009

A loucura da elite gaúcha e possibilidades de sair do hospício


Leia na Carta Capital. Está rendendo um bom debate os comentários que venho fazendo sobre a cena política gaúcha.