quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Rio Grande do Sul: um estado sem norte

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O atual cenário político no Rio Grande do Sul é de incertezas. Incertezas e confusão. Se até alguns meses se podia trabalhar com a idéia de um confronto entre o PT e o PSDB, entre Tarso Genro e Yeda Crusius, hoje há inúmeras possibilidades. Neste momento, a mais provável é o lançamento de várias alternativas, cada uma delas se apresentando aos eleitores gaúchos como a verdadeira portadora da ética, da justiça e do desenvolvimento.

Esta semana, foi a vez dos trabalhistas (PDT e PTB, mais o DEM) lançarem um balão de ensaio afirmando a possibilidade de candidatura própria por uma terceira via. Semana passada foi o PSB, com o deputado Beto Albuquerque, quem tentou colocar-se no partidor como alternativa.

No campo governista, a crise é tão grande que a agenda mínima possível é simplesmente não permitir que a governadora caia. Para isso, fez-se necessário um pacto de silêncio e proteção que faria inveja a máfia siciliana. Tal grau de proteção para Yeda Crusius só é possível porque existe um ambiente social que o permite. Ou seja, do ponto de vista eleitoral, Yeda não é carta fora do baralho e, se é provável que fique fora do segundo turno em 2010, também é possível que venha a ser decisiva no processo.

Se há conflitos intransponíveis na situação, por exemplo, entre a governadora e seu vice, na oposição o quadro não é muito diferente. Tarso Genro até agora conseguiu unificar o seu partido, mas convencer o PT gaúcho de que ele precisa abrir mão de posições para outras forças já são outros quinhentos. O resultado é que hoje o mais provável é que Tarso concorra sozinho no primeiro turno, e tenha de enfrentar antigos aliados, como o socialista Beto Albuquerque, o PCdoB e possíveis aliados mais recentes, como petebista Luis Augusto Lara, lançado candidato a governador pela sigla. Mas, claro, nada disso impede Tarso de sonhar em ser o próximo governador.

Análises mais rigorosas colocam o PMDB gaúcho no campo da direita. O eleitor, contudo, tem a memória do compromisso do MDB com a luta democrática e ainda hoje compreende os candidatos peemedebistas como alternativas de centro. Hoje, o velho MDB é o responsável pelo círculo de silêncio que garante a possibilidade de Yeda continuar governadora. Conudo, o PMDB, com José Fogaça, prefeito de Porto Alegre, ou Germano Rigotto, ex-governador, trabalha intensamente para retornar ao Palácio Piratini. No momento, tudo indica que Fogaça, numa inflexão pró-Serra, seja o candidato de centro “para derrotar o PT”.

Socialistas, capitalistas, petistas, pepistas, trabalhistas, liberais, comunistas, social-democratas e democratas – todos, todos no Rio Grande do Sul têm uma coisa em comum: estão sem norte.

Vamos ver o que povo diz

Caetano Veloso, entre seus arroubos de genialidade, tem um verso que considero chave para entender o país: “Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Escrito antes do desastre neoliberal, e muito antes do analfabetismo político confesso criticando nosso presidente (meu e dele, também), o verso faz parte de uma música que anuncia o novo/velho Brasil fora da ordem, “fora da nova ordem mundial”.

Fui entender de onde Caetano tirou essa idéia quando viajei pelo sul da Bahia há uns quinze anos. Na época, fiquei impressionado com a quantidade de construções populares abandonadas pela metade. Passando de cidade em cidade num ônibus pinga-pinga pude ver que na Bahia tudo era construção e já era ruína. Parecia que o povo fazia um enorme esforço, investia suas economias e sua energia num projeto, mas era obrigado a abandonar antes de chegar ao fim. Também lembro que o número de homens parados, conversando de manhã, de tarde ou de noite me impressionou. Nunca havia visto tanta gente reunida em grupos dispersos sem nada para fazer.

Recentemente voltei à Bahia. Vi muitas construções novas e não encontrei mais a paisagem da desocupação de quinze anos atrás. Encontrei uma Bahia “fora da nova ordem mundial” que soube, como o Brasil, fortalecer-se e superar-se diante da crise. Sinceramente, não sei se isso é corroborado pelos números frios da economia e das taxas de crescimento, mas a impressão que me ficou foi essa.

A ordem e a desordem em comum

Tudo muito diferente do Rio Grande do Sul. Quando o povo baiano lutava há quinze anos contra as ruínas, no Rio Grande do Sul montávamos sonhos de poder à esquerda, à direita e ao centro. O Rio Grande do Sul, em geral, prosperava fora da ordem brasileira. A cada período de quatro anos vínhamos e seguimos perseguindo a ordem e a contra-ordem mundial. Oscilamos entre alternativas neoliberais, socialistas e centristas com grande radicalidade, todas muito bem ordenadas ou contrárias à ordem.

Fizemos muito no Rio Grande. Mas não tivemos a capacidade que o Brasil teve de construir o novo, de superar padrões e conceitos. Ficamos aprisionados no pampa gaúcho aos velhos dogmas. A arrogância gaúcha – “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”, afirma o hino do Estado – norteou todas as construções políticas do pampa. Quem não lembra de Leonel Brizola dando lições de política? De Pedro Simon ensinando ética? De Antônio Britto, defensor da cartilha privatista? Do PT de Porto Alegre, demiurgo do Orçamento Participativo e do Fórum Social Mundial?

Hoje, a desordem gaúcha, a falta de projeto e de comando, produz o mesmo que a ordem baiana sob ACM: confusão e atraso. Ainda não se vê grupos de “gaúchos a pé” na beira das estradas conversando, mas as rodas de chimarrão que ainda existem já são cada vez mais longas. E lentas.

O convencimento do povo gaúcho hoje é de que sua elite de direita, de centro ou de esquerda não possui ética. Que suas estruturas de poder – Estado, Detran, Tribunal de Contas, Prefeituras, etc, etc – estão corrompidas. E pari passo com o conjunto do povo brasileiro, o povo gaúcho não chega a ver grande problema nisso. O problema que o povo vê é que hoje o Rio Grande está tomado pela mediocridade, pela falta de iniciativa, pela ausência de projetos, pelo pensar rasteiro, pela política miúda.

O Rio Grande do Sul hoje é um Estado sem norte e suas lideranças batem cabeça tentando entender o que se passa, mas têm enorme dificuldade.

É neste cenário de incertezas em que a democracia (ou a falta dela) demonstra o seu valor. Por sorte, neste país que venceu a crise com a força do trabalho, hoje temos uma democracia razoavelmente sólida. E ano que vem, 2010, o povo gaúcho vai decidir o rumo que quer tomar. Eu, de minha parte, como Caetano, apenas digo que “não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.

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OBS: Tive a inspiração para esse artigo lendo um texto do Emiliano José, Caminhos do Futuro, que se você ainda não leu eu recomendo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A imprensa, Yeda e Lula no Pampa


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Muita gente acredita na recuperação de Yeda Crusius, na possibilidade dela vir até a reelege-se em 2010. Crê que vencidos os inquéritos, os processos administrativos, judiciais e políticos, como o impeachment e a CPI ainda em curso na Assembleia, a governadora renascerá das cinzas numa campanha eleitoral restauradora de sua imagem e sua política. O trabalho que está sendo feito nos últimos 60 dias para Yeda reforça essa tese. No lugar da governadora geradora de conflitos, uma Yeda "paz e amor" passou a ser apresentada em todos os meios de comunicação em fotos e manchetes.  
 
Até ano passado a possibilidade de recuperação era real. Um conjunto de elementos indicava que Yeda poderia afirmar seu governo e, um pouco como Lula no pós-mensalão, dar a volta por cima. Agora, não existe mais gerenciamento de imagem que resolva seus problemas. Os que acreditam poder recompor sua viabilidade eleitoral em geral subestimam a inteligência do eleitor. Acham que o marketing e mídia podem tudo.
 
Os motivos que levaram Lula às alturas na avaliação do cidadão brasileiro são os mesmos que colocam Yeda entre os piores governos da história do Rio Grande. O presidente Lula chegou aos 80% de aprovação por causa da sua política e navegando na contra-mão do PIG. Já Yeda fez o inverso. Com uma proteção permanente do PIG, a governadora hoje tem cerca de 80% de desaprovação. Ou seja, assim como o PIG não derrotou Lula, o PIG não será capaz de reerguer Yeda em 2010.
 
Políticas inversas
 
A saga de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul repete, em grande medida, a de seus antecessores. Jair Soares, Alceu Colares, Antonio Britto, Olívio Dutra, Germano Rigotto foram governadores que buscaram acertar e acabaram recusados pelo eleitor. Mas Yeda tem uma particularidade: ela sempre dependeu da força das suas ideias e pôde desprezar, em sua trajetória, partidos, forças sociais e soluções de compromisso. Até chegar, quase por acaso, ao cargo que ocupa hoje.
 
Tudo o que se pensar sobre Lula e suas políticas, deve-se colocar um sinal de negativo para compreender Yeda. Enquanto Lula agrega, Yeda confronta. Enquanto Lula conversa, Yeda briga. Enquanto o Brasil segue em frente, O Rio Grande vai para trás.
 
Yeda faz um governo que teve a ousadia de instalar uma representação em Brasília chamando-a de "embaixada", como se o Brasil fosse um outro país. No governo gaúcho, confrontada com uma posição em que, obrigatoriamente, é preciso "fazer política", Yeda revelou-se incapaz. Sua gestão é uma sucessão de confrontos e feitos inúteis ou negativos, a maior parte deles com os próprios aliados. Incluem-se nesta lista o vice-governador, Paulo Feijó, do DEM; o assessor morto em Brasília, que chegou a ser nomeado "embaixador" da "representação gaúcha"; o "companheiro" Lair Ferst, que teria feito uma delação premiada; o ex-secretário da Segurança Pública, Otávio Germano (PP), que teria a ver com a corrupção no Detran.... A lista é longa e deve frequentar as atas de julgamentos e condenações judiciais nos próximos anos. Diante de tudo isso, Yeda mostrou-se inconfiável ao eleitor. Ela havia prometido "um novo jeito de governar". O mínimo que deveria ter cumprido seria encarar de um modo diferente a corrupção. Mas, não. Yeda acabou decorando o quarto do neto em sua casa particular com dinheiro público. Comprou puffs e assoalhos emborrachados. E não existe PIG no planeta que consiga justificar isso. Nem vai resolver o PSDB intervir no estado gaúcho, nomeando uma agência paulista para cuidar da imagem de Yeda.  
 
O papel do PIG gaúcho
 
Já manifestei aqui meu distanciamento crítico quanto ao termo PIG. Esqueçam! Vocês, leitores, me convenceram de que é preciso trabalhar com o conceito. Mas vamos ao que interessa: O PIG gaúcho fez tudo o que podia e não podia por Yeda Crusius. Se alguma coisa vale a minha palavra, eu testemunho: nunca um governante teve tamanha boa vontade da mídia quanto Yeda Crusius. Nem mesmo Antônio Britto foi tão defendido. Yeda teve tudo, tudo, tudo. E ainda está tendo. E, em que pese o peso e importância da mídia na formação da opinião das pessoas, todo o apoio que foi dado à governadora não conseguiu forjar uma imagem positiva de seu governo.  
 
Ao mesmo tempo, o PIG gaúcho vem martelando contra Lula noite e dia nos últimos anos mas também não consegue imprimir uma imagem negativa ao presidente. Ao contrário, hoje Lula tem no RS praticamente os mesmos índices que possui no país. Ou seja, o papel do PIG gaúcho, cada vez mais, é enrolar peixe no dia seguinte. ///

sábado, 24 de outubro de 2009

Yeda derrota o impeachment


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Na última terça feira, 20, a governadora Yeda Crusius obteve uma importante vitória na Assembleia gaúcha. Com 30 votos a favor e 17 contra, o processo que pedia sua cassação foi encerrado. Os deputados que a apoiam votaram pelo do relatório da deputada Zilá Breitenbach (PSDB) que requiria arquivamento do pedido de impeachment da governadora tucana. Em cadeia nacional, a deputada declarou que não cabia instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito “porque as provas não eram suficientes” (sic).

O resultado já era esperado. No início do ano, líderes da oposição já avaliavam que dificilmente um pedido de impeachment iria prosperar na Assembleia “porque 2/3 da Casa estão comprometidos”, me afirmou um deputado. Após a votação, foram ouvidos fogos de artifícios próximos ao Palácio Piratini.

Agora, o próximo passo do governo deve ser enterrar também a CPI da Corrupção, que está travada na Assembleia. Com isso, Yeda recuperaria as condições mínimas de governabilidade e poderia voltar a sonhar com a reeleição.

Um roteiro de factóides

Nas últimas semanas, Yeda Crusius trava, talvez, as últimas batalhas políticas de sua vida. A julgar por todas as pesquisas de opinião de diversos institutos, o eleitor gaúcho já fez o seu julgamento. Yeda é considerada a pior governadora que o Estado já teve, creio que desde que são feitas pesquisas. Ela não tem, portanto, nenhuma chance eleitoral em 2010. Mas insiste em declarar-se candidata, e reiterou esse desejo na convenção do PSDB no último final de semana.

Yeda Crusius, antes disso, havia iniciado uma viagem a Washington, onde deveria reunir com o Banco Mundial para obter liberação da segunda parcela de 650 milhões de dólares de um empréstimo de 1,2 bi que obteve ano passado. Esse empréstimo é pedra angular de seu governo. É ele, junto dos cortes realizados, que permitiu o “déficit zero”, apresentado a todos como sua grande conquista diante das gestões anteriores. Sem essa segunda parcela, seu governo deve naufragar num mar de dificuldades.

A reunião para negociar a liberação da segunda parcela com Banco Mundial estava prevista para a última semana. Mas tendo chegado em São Paulo, Yeda teria sonhado (ou “um anjo” teria ido falar com ela) que sofreria um golpe de Estado. Alertada pelo sonho premonitório (ou pelo anjo), Yeda retornou imediatamente e passou a denunciar a tentativa de golpe. O golpista seria seu vice-governador, Paulo Feijó (DEM), com apoio do poder judiciário e do poder legislativo. Tudo dentro de um roteiro que parece inspirado em Joana D'Arc – e, na prática, chega a ser uma ofensa à memória da mártir francesa.

Porque Yeda não viajou?

Ninguém na imprensa gaúcha se deu ao trabalho de investigar os motivos da desistência de Yeda de viajar. Na verdade, talvez Yeda não pretendesse desde o início ir a Washington. Ocorre que as condições exigidas pelo Banco Mundial para liberar a segunda parcela do empréstimo não foram cumpridas. Yeda simplesmente não obteria a liberação dos 650 milhões de dólares de que precisa desesperadamente.

Para prosseguir com o contrato, o Banco Mundial exige que o governo: 1) Implemente as Oscips, programa para o qual a RBS tem se esforçado em dar uma cobertura positiva, mas ainda patina; 2) Faça o ajuste fiscal, que hoje é impossível devido à queda da receita; 3) Implemente um Sistema de Previdência Complementar (está na Assembleia) e de Gestão Única da Previdência (já aprovado pela Assembleia), este ainda dependente da adesão do Judiciário e da Assembleia e que encontra resistências corporativas instransponíveis em ambos; 4) Imponha novos Planos de Carreira, com ênfase para o Plano de Carreira do Magistério, acarretando perdas ao funcionalismo, que resiste de todas as formas. Assim, a viagem seria uma derrota definitiva.

O financiamento do Banco Mundial foi negociado antes da crise da economia internacional. Toda a sua lógica é neoliberal, assim como o governo de Yeda Crusius. A conclusão óbvia é que a governadora não viajou simplesmente porque não fez o dever de casa, conforme seus financiadores internacionais. Não foi nenhum anjo que soprou em seu ouvido. Foi o próprio “Deus Mercado”.

A terceirização do governo

A confusão é tamanha no pampa gaúcho que o PSDB nacional teria decidido socorrer a governadora tucana contratando uma empresa de comunicação e gestão de crise para cuidar da sua imagem. Até aí, tudo bem. É absolutamente legítimo que o PSDB, preocupado com as trapalhadas de um de seus mais importantes quadros, contrate uma assessoria para auxiliar a governadora a sair da saia justa em que se meteu.

A julgar, entretanto, pelas informações que circulam nos bastidores da imprensa gaúcha, tem muito caroço neste angu. Conforme o site Coletiva.net, especializado nos meios publicitário e jornalístico, uma empresa paulista, FSB Comunicações, “foi contratada pelo PSDB nacional e um grupo de empresas, em um pacote de R$ 1,8 milhão”. Ainda conforme Coletiva.net, a FSB “há cerca de dois meses presta serviços ao Palácio Piratini”. Além disso, já teria feito pesquisas que repetem os dados de outros institutos e seria responsável pela demissão do Coordenador da Assessoria de Comunicação do Palácio Piratini, jornalista Joabel Pereira.

O site Coletiva.net em geral é bem informado e, até agora, ninguém desmentiu nenhuma de suas afirmações. E todas são gravíssimas.

Quem seriam as empresas interessadas em limpar a imagem de Yeda? A troco de quê estariam fazendo isso? Como é possível uma consultoria contratada por um partido e um ”grupo de empresas” estar prestando serviços para um governo? E, inclusive, demitindo seus dirigentes? Com que autoridade?

Mais: Por que uma empresa investir num governo falido? Quais as razões por trás disso? Se há um insvestimento, qual é a expectativa de retorno? Pior ainda: Não estaríamos diante de uma espécie de terceirização ou privatização do próprio governo do estado? Ou, senão do governo, pelo menos de sua política de comunicação, dado que, conforme a Coletiva, a consultoria contratada pelo PSDB e pelas empresas, estaria dando as cartas no setor?

São tantas as perguntas que talvez a base yedista na Assembleia gaúcha esteja certa: o melhor é nem dar respostas

domingo, 18 de outubro de 2009

A loucura da elite gaúcha e possibilidades de sair do hospício


Leia na Carta Capital. Está rendendo um bom debate os comentários que venho fazendo sobre a cena política gaúcha.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Casa Branca enfrenta a mídia

Saiu na revista Time. Está na hora do time do Lula comprar essa idéia do Obama, ao invés de ficar gastando com soluções de internet que nem sempre se aplicam aqui. Ver matéria abaixo:

A Casa Branca decide encarar a 'imprensa'

8/10/2009, Michael Scherer, revista Time

Não houve um momento determinado, quando a equipe de comunicação da Casa Branca decidiu que os grandes órgãos da mídia não estavam dando conta do recado, nem faziam jornalismo. De fato, houve vários momentos.

Para o secretário de Imprensa, Robert Gibbs, o dia da virada aconteceu no início de setembro, quando o New York Times publicou, como matéria de primeira página, o "crescimento nas pesquisas, de pais e mães preocupados com o conteúdo do discurso de Obama para crianças e adolescentes" – antes mesmo de o jornal (e os 'pais e mães'!) conhecerem o teor benigno do discurso. "Chega um momento que... Chega! Páre aí! Mas... que negócio é esse?" – disse Gibbs. "Essa coisa está transformada em circo de três picadeiros!"

Para o diretor de comunicações da Câmara de Deputados, Dan Pfeiffer, foram os ataques mais hiperbólicos, esse ano, contra o plano de Obama para a reforma da assistência à saúde, sempre noticiados como se houvesse alguma "controvérsia", que acionaram um alarme em sua cabeça. "Quando se debate se se trata ou não de assassinar velhinhas e criancinhas doentes" – diz ele –. "não se aplicam as regras normais do jornalismo: é preciso ser a favor de não assassinar ninguém. É preciso ter lado e a opinião do 'outro lado' absolutamente não interessa."

Para a chefe de Pfeiffer, Anita Dunn, o momento do "aha!" aconteceu quando o Washington Post publicou uma segunda coluna assinada pelo mesmo político Republicano, 'denunciando' que haveria "32 czares" indicados por Obama e já trabalhando na administração pública. Nove deles foram nomes aprovados pelo Senado, quer dizer, em nenhum caso seriam 'czares'. "O que de fato me surpreendeu e ainda surpreende até hoje, é que o Washington Post nunca questionou essa opinião de seu colunista. É inacreditável... mas aconteceu."

Todas as críticas, diárias, repetidas, as justas e também as injustas, e as delirantes, todas, estão pesando sobre a Casa Branca, objeto de ataques incansáveis. Então, a Casa Branca pensou em uma nova estratégia: em vez de facilitar a vida dos jornalistas, oferecendo-lhes fatos que os jornais e jornalistas usam em seguida como se fossem 'prova' do que escreveriam contra Obama mesmo sem qualquer verificação ou sem qualquer prova, a Casa Branca decidiu entrar no jogo e criticar mordazmente o jornalismo de futricas, os políticos e os veículos que vivem de publicar bobagens, ou mentiras, ou invenções completamente nascidas das cabeças dos 'jornalistas', como, por exemplo, a ideia de que o plano de Obama para reforma da assistência à saúde dos norte-americanos incluiria "clínicas sexuais" a serem implantadas nas escolas. Obama, descansado e relaxado depois dos feriados em Martha's Vineyard, riu da ideia dos 'jornalistas' e disse aos auxiliares que "Ok. Vamos chamar os caras p'ra conversar lá fora."

A estratégia de não fazer prisioneiros surpreendeu alguns 'jornalistas', considerando a cobertura amplamente favorável ao candidato Obama e considerando, também, a tendência do presidente de trabalhar em temperaturas retóricas menos exaltadas que o padrão de Washington e de não dar atenção às hipérboles partidarizadas. Nada disso. O Blog da Casa Branca, agora, não perde vez para falar mal dos críticos do governo. Um dos postados mais recentes levava o título de "A rede Fox mente" e sugeria que a rede estaria militando contra os interesses dos EUA, ao ridicularizar os esforços de Obama para que Chicago fosse escolhida para as Olimpíadas 2016.

Nenhum funcionário da Casa Branca ofereceu 'fatos' explicativos ou pediu desculpas. "A melhor analogia é o beisebol" – disse Gibbs. "O único modo de arrancar os caras de uma base, é mandar uma bola rápida. Aí, eles se mexem."

A generala dessa guerra é Anita Dunn, 51, veterana estrategista de campanhas eleitorais, que chegou em maio à Casa Branca. Dunn é um dos grandes nomes das campanhas dos Democratas desde o final dos anos 80 e, nesses meses, foi ela quem montou a nova estratégia de respostas rápidas. Na Casa Branca, converteu-se em leitora aplicada de todos os jornais mais conservadores e crítica ferocíssima da rede Fox News, comandando o movimento para impedir que funcionários do governo (inclusive Obama) deem entrevistas ou façam declarações àquela rede.

"Trata-se de opinião partidarizada, travestida de noticiário e de jornalismo" – diz Dunn. "Eles ainda estão com bons números de audiência, mas estamos nos movimentando e não vamos perder essa."

O diretor de jornalismo da Fox, Michael Clemente, reagiu; disse que as críticas pela Casa Branca misturam os jornalistas da rede e colunistas não-jornalistas, como Glenn Beck [âncora de um dos programas de debates da Fox. Para saber quem é, ver O Público, de Portugal, em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1401620]. Para Clemente, Beck seria como "um colunista não-jornalista, dos que escrevem nos jornais"."

Dunn — mãe de um adolescente de 13 anos, que planejou o cronograma do novo emprego na Casa Branca, de modo a poder passar mais tempo com o filho – é uma raridade feminina, no círculo mais íntimo de auxiliares de Obama, só de rapazes. Mas o impacto que ela teve na Casa Branca é indiscutível. Desde sua chegada, a operação das comunicações foi reformulada, firmemente re-focada, com forte ênfase no planejamento de um novo ciclo de noticiário e estrito controle sobre os contatos entre sua equipe e os jornalistas dos grandes jornais. Nas reuniões internas diárias da equipe, é ela quem decide quem 'ouvirá resposta rápida', quando e como; é ela também quem decide onde, quando, como e para quem é caso de justificativas, admitir erros ou pedir desculpas.

É mulher de instintos ferozes, que rapidamente vêm à tona. "Aqui na Casa Branca, (...) temos de ser mais agressivos, em vez de sempre dar explicações, bater em retirada ou só nos defender" – diz ela. A imprensa vive de falar. Não há silêncio, na imprensa. Por isso, a imprensa sempre pode usar qualquer mínima coisa e converter em notícia, mesmo que, para isso, os fatos sejam distorcidos. Não precisamos aceitar isso. Por quê?"

Em outras palavras: depois de oito meses de governo Obama, acabaram-se os dias de harmonia 'suprapartidária' ou 'despolitizada', e ilusão de que a imprensa naturalmente ofereceria "dois lados" das notícias. Agora somos "NÓS" contra "ELES". E o governo Obama está jogando para ganhar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O PUFF DE YEDA CRUSIUS









Imagens do novo jeito de governar. Para ler, vai na Carta Capital On Line. Ou clica aqui.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Novo site da Veraz na rede






Acaba de ser publicado o novo site da Veraz. Atualizamos a seção de memória com alguns trabalhos realizados no primeiro semestre deste ano. E adequamos nossa comunicação na rede às novas tendências da web integrando o site com o twitter, o blog e a página da empresa no orkut. Clique AQUI e surpreenda-se com a simplicidade da Veraz.
A Veraz recentemente venceu a licitação da prefeitura de São Leopoldo. Para uma atualização no que diz respeito ao posicionamento da agência, leia a página "Sobre a Veraz" no site.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O PIG e a imprensa gaúcha


No Rio Grande do Sul, temos uma imprensa que atua de modo militante e conservador desde a saída da Ditadura. Pode-se afirmar, por exemplo, sem correr o risco de estar dizendo um absurdo, que a RBS, tendo a frente o jornal Zero Hora, como uma espécie de comitê central de campanha, já elegeu dois de seus quadros para o governo estadual. Primeiro, Antônio Britto (PMDB), em 1998. Depois, Yeda Crusius (PSDB), em 2006. A unir os dois governos tivemos a mesma orientação privatista, concentradora e modernizante que a esquerda gaúcha tanto combateu como neoliberal.

De fato, Britto e Yeda saíram do anonimato trabalhando nos veículos da RBS. Construíram-se e foram construídos como quadros da empresa. Projetaram-se politicamente nas páginas e nas ondas de rádio e TV do grupo. Além de erigir os dois governadores de perfil nitidamente privatista, o grupo, num certo sentido, também teria sido responsável pela derrota do governo Olívio Dutra (PT) e auxiliado decisivamente Germano Rigotto (PMDB) como alternativa ao PT em 2002.


O PIG no RS é PIM


Principalmente por isto, ou seja, porque no Rio Grande a presença da imprensa na cena política vem de décadas, confesso que demorei a entender a expressão "PIG" - Partido da Imprensa Golpista, popularizada por Paulo Henrique Amorim, entre outros. E ainda estou em desacordo com ele.

O termo é moda e já virou até verbete na Wikipedia. Conforme lá consta "é utilizado de forma genérica e pejorativa para se referir ao jornalismo praticado pelos grandes veículos de comunicação do Brasil, que seria demasiadamente conservador e estaria tentando derrubar o presidente Luis Inácio Lula da Silva e membros de seu governo de forma constante." Este fenômeno, baseado no que se lê ultimamente, teria por base a crise dos partidos políticos e da política de um modo geral. Os veículos estariam passando a ocupar o vazio deixado pelos partidos em crise, sendo eles próprios partidos ou fazendo às vezes de partidos.

Meu desconforto com o PIG tem raízes regionais. Não existe novidade em ter uma imprensa que atua politicamente e de forma conservadora no Estado. Isso sempre foi assim. O novo, como já comentei há algumas semanas, é que grupos distintos da mídia gaúcha estão tendendo a uma posição única, particularmente no que diz respeito às denúncias de corrupção no governo Yeda. Mas isso não é PIG - isso é só unidade de classe, fechamento de posição, defesa dos seus. Um movimento inusitado, sim, mas eu diria até compreensível. No Rio Grande do Sul, de fato, o que move a mídia não é um espírito golpista. O que move a RBS e os grupos menores é o medo de que Lula e Tarso sejam vitoriosos e o processo de democratização da comunicação se acentue, atingindo seus interesses regionais.


Olhando desse modo, a imprensa gaúcha está mais para PIM (Partido da Imprensa com Medo) do que para PIG. Capisco?


Os pingos nos is

Por outro lado, olhando o cenário nacional, sinceramente não vejo onde a imprensa brasileira tenha mudado para passar a ser condenada como golpista. Conservadora, sim, ela sempre foi. Sempre que teve interesses contrariados, atuou politicamente e tratou de colaborar para a derrubada de presidentes e governos. Por que agora considerá-la golpista? Ou ela sempre foi golpista, ou é um erro, um equívoco deseducativo utilizar agora o termo.

A mudança havida, real, no cenário nacional, é o sucesso do governo Lula. Além de ser um governo com posições opostas às dos grupos que dominam a mídia, é um governo bem sucedido que está democratizando as verbas na comunicação. Ou seja, é um governo que está mexendo onde dói no ser humano: no bolso dos bacanas da mídia.

Junte-se a isso o crescimento exponencial da internet (que também retira poder da mídia tradicional) e temos aí um quadro novo: o desvario da mídia não se deve a ela estar substituindo os partidos, mas sim ao fato dos seus partidos não estarem mais conseguindo lhes dar proteção. A denúncia do PIG pode ser boa, e em geral politicamente justa. Pode revelar a total falta de compromisso dos grandes veículos com a ética da informação. Mas é preciso entender que, hoje, quanto mais a mídia mente, mais isso é sinal de desespero e perda de poder. Isso não é sinal de fortalecimento. É fraqueza.

De fato, se tivermos a compreensão de que a família Sirotsky tem posições fortemente "neoliberais, internacionalistas e modernas de direita", como defende um amigo meu, a RBS nunca teve no Rio Grande do Sul um correspondente político partidário alinhado com suas posições e foi obrigada a realizar sua própria defesa desde sempre. Viria daí sua veia "piguista" desde os anos 90. Contudo, estar agora, na prática, acobertando um governo considerado corrupto e incompetente pela maioria da população gaúcha não é um sinal de poder, mas uma prova de sua imensa fraqueza. Inversamente, o fato da mídia nacional estar combatendo Lula não é sinal de força - é demonstração de pavor e medo diante da mudança do país.


2010 vem aí


É complicado escrever coisas como essa, mas me cobrem. Em 2010, o papel da RBS no processo eleitoral gaúcho, diferente de todas as eleições até aqui, não será mais decisivo. Com a crise dos seus partidos e a democratização da comunicação propiciada pelas novas tecnologias, a RBS está se tornando apenas mais um ator no processo gaúcho. E um ator tão ou mais frágil que os partidos de seu arco político.


O quadro sucessório gaúcho está caminhando para a construção de um novo cenário, configurado não mais pelos setores que sempre dominaram a política no Estado, mas pela dinâmica dos novos agentes sociais emergentes no novo Brasil. Em volta de Porto Alegre, que sedia o governo Yeda Crusius (PSDB) e hoje é governada por José Fogaça (PMDB), existe uma legião de governos populares nas cidades periféricas da região metropolitana. A luta no Rio Grande do Sul em 2010 será entre o centro e periferia, entre a classe A e a classe C, entre a turma que frequenta a rua Padre Chagas em Porto Alegre e o povo que vibra e decide os destinos do Big Brother em suas casas nas periferias da capital.